Celulares na escola e o problema que vai além da sala de aula
Nos dias de hoje, a presença do celular parece ser onipresente. Está em mãos de crianças, adolescentes, adultos e idosos, nos mais variados momentos do dia. A tecnologia tem sido uma aliada para aproximar aqueles que estão distantes, mas, ao mesmo tempo, está se tornando uma barreira invisível que separa as pessoas que estão bem perto umas das outras. Isso é preocupante, não só nas escolas, mas também nos ambientes sociais, no trabalho e até dentro de nossas casas. E, talvez, o alerta mais urgente venha da proposta de proibição do uso de celulares nas escolas, recentemente aprovada pela Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, que traz à tona uma discussão muito mais ampla sobre como a tecnologia está impactando nossa vida cotidiana.
O projeto de lei que visa proibir o uso de celulares em sala de aula é uma medida que vai ao encontro de um problema que muitos já sabem ser real: o uso excessivo dos aparelhos prejudica o desempenho acadêmico, compromete a concentração e afeta a saúde mental dos estudantes. O celular, ao invés de ser uma ferramenta de aprendizado, muitas vezes se torna um obstáculo para que o aluno se engaje de fato com o conteúdo, com a aula, com a troca de ideias e com a interação social. E essa realidade, que inicialmente se manifesta nas escolas, tem reverberações muito mais amplas.
Primeiro, vamos falar sobre os jovens, que têm sido o foco das discussões sobre o uso excessivo de tecnologia. A psicóloga estadunidense Jean Twenge, em seus estudos, já alertou que o aumento do uso das redes sociais, principalmente em dispositivos móveis, está diretamente ligado ao aumento de quadros de ansiedade e depressão entre os adolescentes. Eles estão mais conectados do que nunca com o mundo virtual, mas cada vez mais distantes das interações reais. O celular, em vez de aproximá-los da vida social, está promovendo um isolamento emocional. É um paradoxo: o dispositivo criado para conectar pessoas está, na verdade, criando uma sensação de desconexão.

Dentro das escolas, o impacto do celular é evidente. Além de afetar a concentração, o uso excessivo prejudica o desenvolvimento de habilidades cognitivas essenciais, como a leitura atenta e a reflexão profunda. No lugar de livros físicos, os alunos preferem ler de forma rápida, fragmentada, nos seus aparelhos, sem absorver o conteúdo de maneira significativa. A aprendizagem se torna superficial. E, ao mesmo tempo, como alertam especialistas, o uso constante de telas diminui a capacidade de resolução de problemas, de tomar decisões e de manter o foco em tarefas por períodos prolongados.
Mas o impacto não se restringe apenas às escolas. O celular e a tecnologia têm afetado nossas interações sociais em vários níveis. Quantas vezes, em reuniões de família ou encontros entre amigos, vemos todos focados na tela do celular, ignorando quem está ao nosso lado? Em vez de aproveitar o momento presente, as pessoas estão mais preocupadas em registrar o que está acontecendo ou em ver o que outras estão fazendo. Isso enfraquece os laços afetivos, prejudica a convivência e diminui a qualidade das relações interpessoais.
E o que dizer dos ambientes de trabalho? A tecnologia tem sido uma aliada na otimização de processos, mas também tem trazido consigo uma série de desafios. O excesso de notificações, e-mails e mensagens de trabalho pode gerar uma sobrecarga de informações e uma dificuldade imensa de desligamento. O profissional se vê constantemente conectado, mesmo após o expediente, o que gera estresse, falta de descanso e diminuição da produtividade. Além disso, as reuniões, que antes eram momentos de debate e reflexão, muitas vezes se tornam espaços de distração, com colaboradores mais atentos ao celular do que ao conteúdo discutido.
Dentro de casa, o celular também tem sido um vilão da convivência familiar. Pais e filhos, que deveriam estar interagindo, muitas vezes estão em mundos paralelos, cada um imerso em sua tela. Isso tem causado uma quebra de comunicação, fazendo com que pais não saibam o que está acontecendo com seus filhos, e vice-versa. E, quando finalmente se conectam, é por meio de uma tela, e não por uma conversa olho no olho. Esse distanciamento vai muito além da sala de aula, impactando a dinâmica familiar e a qualidade da convivência no ambiente doméstico.
A proibição do celular nas escolas, proposta pela Comissão de Educação, é uma tentativa de retomar o foco e a qualidade do aprendizado, mas é também um alerta para os outros ambientes da nossa vida. Precisamos refletir sobre o papel que a tecnologia tem desempenhado nas nossas relações, no trabalho e na educação. A ideia não é demonizar a tecnologia, que tem, sim, muitos aspectos positivos, mas, sim, equilibrá-la de forma que ela sirva para aproximar as pessoas sem prejudicar a nossa saúde mental e as nossas relações interpessoais.
O que a medida propõe é uma reintegração do foco, da atenção plena e da interação social genuína. É hora de entender que a proximidade digital não pode ser confundida com a verdadeira conexão humana. O celular, quando usado de forma indiscriminada, tira de nós o que realmente importa: a experiência de estar presente no momento e de se relacionar de forma profunda com as pessoas ao nosso redor.
Com efeito, a proibição do celular nas escolas é apenas o começo de uma reflexão mais profunda sobre como a tecnologia está moldando nossas vidas. Se queremos melhorar a qualidade do aprendizado, a saúde mental dos jovens e a convivência familiar e social, precisamos repensar o uso do celular, buscando um equilíbrio que permita que ele seja uma ferramenta útil, e não uma barreira para as nossas relações reais.
“O celular, ferramenta de conexão, ironicamente nos desconecta daquilo que verdadeiramente importa: o outro...” – Alex Fernandes França
· Alex Fernandes França é Administrador de Empresas, Teólogo, Historiador e Mestrando em Ensino pelo PPIFOR – UNESPAR