quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Picadas

Saí de casa e vi, na calçada ao lado, um galho enorme de árvore caído no chão. Minha vizinha – uma senhora de seus...

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Coluna / EditoriaCrônica
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ColunistaFabiana Margonato
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Publicado em05/10/2026

Saí de casa e vi, na calçada ao lado, um galho enorme de árvore caído no chão.

Minha vizinha – uma senhora de seus oitenta e poucos anos – puxava o galho devagar.

— A senhora quer ajuda?

Ela me olhou, pensando.

— Nem sei. Minha filha bem que me disse pra não cortar esse. Falou que ia dar problema.

Cheguei mais perto e fui erguendo o galho.

— A senhora viu que tem uma caixa de abelhas bem ali?

Nem consegui mostrar direito.

Um enxame veio na nossa direção. Fomos atacadas em cheio.

Minha vizinha correu pra dentro da casa dela.

Eu corri pra minha. Entrei

— Que foi, mãe? Cê tá bem? Não tinha ido caminhar?

— Ai, ai, ai! NADA bem! Levei um monte de picadas de abelha.

Corri pra debaixo do chuveiro. Água gelada. Gelo. Melhorou bem pouco.

Lembrei da vizinha e fui ver como estava.

Ela tinha voltado pra frente da casa. Procurava alguma coisa no meio das folhas espalhadas pela calçada.

— Não consigo encontrar o controle pra fechar o portão.

Ajudei a procurar. Uns vinte minutos e nada.

Seus olhos se encheram de lágrimas.

— Vou pegar o controle reserva.

Seu rosto estava todo inchado. Os braços também. Devia ter levado umas cinquenta picadas.

— Está doendo muito? A senhora quer um remédio?

— Nem sei. Minha filha e meu marido vão brigar muito comigo. Não devia ter cortado esse galho.

— Para com isso. A senhora é que é a mãe. E ela, a sua filha…

— Nem sei. Preciso entrar.

Ela fechou o portão. Eu fui caminhar.

Andei meus quase seis quilômetros diários. A caminhada pesou demais. Cheguei em casa suando e cheia de calafrios.

Tomei um remédio e dormi por umas duas horas.

Quando acordei, cada calafrio me lembrava das picadas.

E eu pensava na vizinha.

Bati em sua casa ainda naquela noite. Ninguém atendeu.

Voltei no outro dia, bem cedo.

Ela atendeu.

— Vim saber como a senhora está.

Ela se aproximou. Sorriu de verdade pra mim. Um sorriso com tristeza no olhar.

— Fiquei bem. O controle estava bem ali, atrás do vaso. Desculpa por te atrapalhar.

— Não atrapalhou. Estou aqui. E vou sempre estar.

Ela quis me abraçar.

Encurtei a conversa.

— Pode chamar se precisar.

Voltei pra casa, mas meu coração disparou.

Eu sentia cada picada gritando. E, junto, aquele calafrio.

Toda vez que lembro daquele rosto, daquele olhar e daquelas palavras, é como se uma nova picada entrasse na minha pele, me pedindo um banho gelado pra acalmar o que vem de dentro — mesmo que eu não saiba direito o que essa dor é.

 

          Fabiana Margonato é mestra em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três.

Instagram: @fabiana_margonato

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Fabiana Margonato

Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três. Instagram: fabiana_margonato

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