quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Café com leite

Ela também! Minha mãe também joga!           Os meninos na quadra me olharam de um jeito estranho e meio curioso.           Naquele sábado à...

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Coluna / EditoriaCrônica
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ColunistaFabiana Margonato
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Publicado em28/09/2026
  • Ela também! Minha mãe também joga!

          Os meninos na quadra me olharam de um jeito estranho e meio curioso.

          Naquele sábado à tarde, meus filhos me chamaram pra jogar basquete em uma quadrinha perto de casa.

          Sem pensar muito, coloquei o tênis e fui.

          Chegando na quadra, vários meninos entre uns quinze e dezoito anos arremessavam e corriam.

          De cara, sentei em um canto e resolvi esperar. Levantei depois que meu filho revelou meu grande segredo: também gostava de jogar.

          – Vem jogar então, tia!

          Entrei na fila do lance livre para a divisão dos times.

          – Não precisa não, tia. Você vai ficar no time com a gente.

          – Ok, então.

          Era o time dos meninos mais altos e mais velhos. E também mais habilidosos. Só fiz o que me mandaram.

          O primeiro jogo começou. Bola pra lá, bola pra cá. No começo, ninguém me passava. Então roubei algumas. Fiz uns bons passes, algumas cestas e várias assistências. Vencemos bem rápido.

          – Nossa! Ela é boa, a tia!

          O time perdedor ficou irritado.

          – Não vai dar certo! Vamos dividir os times de novo!

          – Não vou sair desse time! – Eu disse, rindo por dentro – Não mandei vocês acharem que sou café com leite!!

          No fim da tarde, já me olhavam de um jeito diferente.

          – Ei, tia, você já jogou antes?

          – Sim. Jogava todos os dias na sua idade e ainda tento jogar sempre que posso.

          – Nossa!!

          – Tem mais outras mulheres que vêm jogar aqui? – Perguntei, sem saber o que ouviria.

          O menino pensou bem e depois lembrou:

          – Tem sim. Tem uma mocinha de uns dezoito anos. Mas está sempre com a família.

          – Ah, legal.

          Sorri sem dizer mais nada.

          Por um instante, senti um prazer genuíno em estar ali.

          Uma alegria verdadeira ao perceber que eu – uma mulher “café com leite” pra muita gente – ainda posso sentir o sangue correndo pelas veias ao colocar um tênis e encarar uma partida de basquete com um bando de moleques.

Colunista

Fabiana Margonato

Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três. Instagram: fabiana_margonato

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