terça-feira, 27 de outubro de 2026

Macacos

Ele me olhava sorrindo.         Eu, morrendo de medo, fiquei toda encolhida e, do outro lado do pátio, os alunos rindo de mim.        ...

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ColunistaFabiana Margonato
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Publicado em27/10/2026

Ele me olhava sorrindo.

        Eu, morrendo de medo, fiquei toda encolhida e, do outro lado do pátio, os alunos rindo de mim.

        Eu ainda não tinha me acostumado.

        Os macacos moravam na escola em que trabalho. Ou melhor — nem sei direito — acho que a escola morava no espaço dos macacos.

        Eu só queria passar pelo corredor. Mas me sentia profundamente intimidada.

        Já tinha ouvido várias histórias: roubo de comida na sala dos professores, assalto à mochila dos estudantes. E o pior de tudo — apenas eu ainda não achava normal.

        Outro dia, aconteceu uma coisa engraçada. Nem sei se essa é a palavra certa.

        Era ensaio geral para a festa junina.

        Estávamos no pátio, os alunos dançavam, riam, conversavam. Os professores assistiam. Tudo dentro da normalidade que só quem vive dentro de uma escola parece conhecer.

        Foi quando me senti observada.

        Ele estava lá.

        O macaco, em cima do telhado da escola, olhando tudo aquilo acontecer.       Estava até dançando.

        E eu, cada vez mais sem entender.

       E comecei a perceber que cenas assim iam me fazendo perder o medo.

        Até que uns dias depois, eu vi um outro macaco. Dessa vez, acompanhado.

        Vi muito de longe e achei que tinha algo na mão. Parecia uma bola, ou até um coco.

        Aumentei o zoom com a câmera do meu celular e não acreditei: era um macaco adulto mexendo na cabeça de um macaquinho.

        Parecia estar tirando piolhos. Vai saber ao certo o que era.

        Fiquei olhando por uns momentos, criando hipóteses com meus alunos sobre aquilo.

        Dois minutos depois, estávamos em sala.

        E a vida continuava. Do lado de dentro e do lado de fora da sala.

        Nesse mesmo dia, depois do sinal da saída, o pátio já estava quase vazio. Demorei um pouco para sair e me peguei observando ao redor.

        Os macacos estavam lá, alguns no pátio e outros fora dele.

Caminhavam tranquilos, apenas vivendo.

        Por um momento, me senti bem. E fui embora feliz, pensando que os macacos, assim como eu, também descansariam naquela noite.

Colunista

Fabiana Margonato

Fabiana Margonato é mestre em Estudos Linguísticos pela UEM, cronista, professora de redação, esposa e mãe de três. Instagram: fabiana_margonato

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